Entendendo o próprio paladar · Guia completo
Como descobrir de qual vinho você gosta (o seu Paladar já sabe)
Como descobrir de qual vinho você gosta: prove em pares, anote o quanto gostou e encontre o que seus favoritos têm em comum. Sem depender do preço.
Você para na frente da prateleira de vinhos do mercado. São dezenas de rótulos olhando para você, e você olhando de volta para eles, igual a quem entrou na sala errada. No fim, leva o de sempre. Ou o do meio da faixa de preço, porque o mais barato dá medo e o mais caro dá dó.
Isso não é falta de gosto. É falta de registro. Para descobrir de qual vinho você gosta, prove com atenção, anote o quanto gostou de cada um e procure o que os seus favoritos têm em comum. Esse padrão mostra o seu estilo, e o estilo vira pista de compra. Neste guia, eu mostro o caminho inteiro, da primeira taça até a prateleira.
Por que é tão difícil saber de qual vinho você gosta?
Porque a gente prova um vinho, acha “bom” e segue a vida. Duas semanas depois, não lembra o nome, a uva nem o que tinha de especial.
E tem o barulho: a nota que alguém deu, a medalha no rótulo, o amigo que “entende”, o preço. Tudo isso fala alto. O seu Paladar, que é quem realmente sabe, fala baixinho e costuma perder a discussão. Dá para treinar o ouvido para escutá-lo, sem precisar virar especialista.
Quais são os tipos de vinho, pensando em estilo?
Tinto, branco, rosé, espumante e fortificado são as categorias que todo mundo conhece. Mas, para descobrir o seu gosto, ajuda mais pensar em estilos, que atravessam todas as cores:
- Leve ou encorpado: o peso do vinho na boca, como leite desnatado e integral.
- Seco ou doce: quanto açúcar sobrou no vinho. A maioria é seca. Os detalhes estão em vinho seco ou suave.
- Ácido ou macio: vinhos que fazem salivar e dão sensação de frescor, contra vinhos mais redondos.
- Com tanino ou sem tanino: aquela secura nas gengivas, típica de tintos. Eu explico os três últimos com testes de cozinha em acidez, tanino e corpo.
- Frutado ou com madeira e tempo: fruta fresca em primeiro plano, ou notas de baunilha, tostado, couro e frutas secas.
“Gosto de tinto leve, com bastante fruta e pouco tanino” já é uma frase que qualquer vendedor entende, sem nome de uva nenhum.
Como separar “como é este vinho” de “o que eu achei dele”?
Essa é a parte que muda tudo. Toda degustação tem duas perguntas, e elas precisam ficar em gavetas separadas:
- Como é este vinho? É a descrição: cor, aromas, doçura, acidez, tanino, corpo, persistência. Aqui existe técnica, e o roteiro de como degustar vinho ajuda.
- O que eu achei dele? É a sua opinião. Aqui não existe resposta errada.
Quando as gavetas se misturam, ou você conclui que o problema é você porque não gostou de um vinho “bom”, ou fica com vergonha de ter gostado de um vinho simples. Um vinho pode ser equilibrado, persistente, cheio de camadas, e mesmo assim não ser pra você. E tudo bem.
Por que provar em pares funciona tão bem?
Um vinho sozinho é difícil de descrever. Dois vinhos lado a lado praticamente se descrevem sozinhos. O cérebro é péssimo em medir coisas no vazio e ótimo em comparar.
Faça assim:
- Escolha dois vinhos que tenham uma diferença clara. Um Pinot Noir e um Malbec, por exemplo, ou um branco com madeira e um sem.
- Sirva os dois ao mesmo tempo, em taças iguais, com a mesma quantidade.
- Prove um, depois o outro, e volte ao primeiro.
- Responda: qual tem mais corpo? Qual faz salivar mais? Qual seca mais a gengiva?
- Por último, a pergunta de verdade: qual eu prefiro?
Pode fazer com amigos, cada um levando uma garrafa. A degustação com amigos do Enomentor organiza isso para o grupo inteiro.
O que anotar depois de cada vinho?
Pouca coisa, mas sempre. O mínimo que funciona:
- O nome do vinho, a uva e o país, se o rótulo disser.
- Duas ou três características marcantes (“muito ácido”, “tanino forte”, “cheiro de baunilha”).
- O quanto você gostou, numa escala simples.
Essa última linha é a mais esquecida. Sem ela, você tem um diário de vinhos, não um mapa do seu gosto.
Na ficha de degustação do Enomentor, o Modo Simples usa escalas de três níveis (pouco, médio, muito) e o Avançado usa cinco (baixo, médio-, médio, médio+, alto). Os dois terminam na mesma pergunta: você gostou? Se preferir papel, tem um passo a passo em ficha de degustação de vinho.
Como achar o que os seus vinhos favoritos têm em comum?
Depois de algumas provas anotadas, separe os vinhos de que você mais gostou. Coloque as anotações lado a lado e procure repetições. Neste momento você vira aquele detetive de série policial, com fotos na parede ligadas por barbante vermelho. Só que as fotos são rótulos e o culpado é quase sempre a acidez.
Perguntas que ajudam:
- Os favoritos são mais leves ou mais encorpados?
- A acidez é alta (Time Chupa Limão) ou eles são mais redondos e macios (Time Abraço)?
- Têm muito tanino (Time Chá Preto) ou quase nada?
- Aparece sempre a mesma família de aroma? Fruta vermelha, flores, baunilha?
- Passaram por madeira?
Olhe também para os que você não gostou. Às vezes o padrão aparece mais rápido pelo que incomoda. “Todo tinto que eu rejeitei tinha tanino forte” já é uma descoberta e tanto.
O perfil de gosto do Enomentor faz essa comparação por você e mostra o que os seus favoritos têm em comum. Mas caderno e caneta também funcionam.
E a Voz do Preço, onde entra nisso?
A Voz do Preço é aquele cunhado que mora na sua cabeça e jura que garrafa cara é sinônimo de vinho bom. Ela é simpática, mas contamina a prova: você começa a gostar do vinho caro antes do primeiro gole.
O antídoto é a prova às cegas. Peça para alguém servir dois vinhos de preços diferentes sem mostrar o rótulo. Prove, anote, escolha o favorito e só então descubra qual era qual. Às cegas, muita gente não consegue apontar o vinho mais caro. Quando o seu favorito for o mais barato, comemore. Você acabou de economizar dinheiro pelo resto da vida.
A pergunta que importa
Tudo neste guia serve a uma pergunta só: você gostou? Não “é um bom vinho?”, nem “é o que eu deveria gostar?”. Gostar de vinho leve, doce, encorpado, barato ou caro é igualmente legítimo. O seu Paladar é a autoridade final sobre o que você gosta. Nota, medalha e preço são informações, não veredictos.
E o gosto não é fixo. Ele muda com a prática, e isso também é bom de acompanhar. Falo disso em o paladar evolui.
Da taça para a prateleira
O padrão dos seus favoritos vira uma frase de compra. Alguns exemplos, como bússola e não como lei:
- Favoritos leves, com pouco tanino: procure Pinot Noir, Gamay e outros tintos de clima mais frio.
- Favoritos encorpados e tânicos: procure Cabernet Sauvignon, Malbec, Syrah e Tannat, e repare no teor alcoólico mais alto no rótulo.
- Favoritos brancos e refrescantes: procure Sauvignon Blanc, Albariño e Riesling seco, de preferência sem madeira.
- Favoritos com baunilha e tostado: procure as palavras “barrica” ou “carvalho” no rótulo.
A Da taça para a prateleira do Enomentor faz essa ponte a partir das suas próprias provas. E, para a hora de encarar a loja, tem o guia de como escolher vinho.
Teste da vez
Na próxima vez, abra dois vinhos, ou combine com alguém de cada um levar uma garrafa.
- Sirva os dois lado a lado, de preferência sem mostrar os rótulos.
- Compare só uma coisa: qual tem mais corpo?
- Escolha o seu favorito e escreva uma frase dizendo por quê.
Uma frase por prova. Em poucas semanas, você vai saber mais sobre o seu gosto do que qualquer guia de vinhos.
O dia em que você escolher um vinho sem precisar de mim vai ser o meu dia favorito. Eu sei, sou um aplicativo meio esquisito.
Dúvidas
Perguntas frequentes
Como descobrir de qual vinho eu gosto?
Prove com atenção, anote o quanto gostou de cada vinho e, depois de algumas provas, procure o que os seus favoritos têm em comum: corpo, acidez, tanino, doçura, aromas ou madeira. Esse padrão mostra o estilo de que você gosta e vira pista para a próxima compra.
Quais são os principais tipos de vinho?
Além de tinto, branco, rosé e espumante, os vinhos se dividem por estilo: leves ou encorpados, secos ou doces, frutados ou com notas de madeira, mais ácidos ou mais macios. Saber em qual estilo você se encaixa ajuda mais do que decorar nomes de uvas.
Vinho caro é sempre melhor?
Não necessariamente. Preço reflete muitas coisas, como região, produção e marca, mas não diz se você vai gostar. Às cegas, muita gente não consegue apontar qual era o vinho mais caro.
Quantos vinhos preciso provar para conhecer o meu gosto?
Não existe número mágico. Com duas ou três provas comparadas já surgem as primeiras pistas, e o padrão fica mais claro a cada vinho anotado.
Quem escreveu
Um mentor de vinho que prefere fazer perguntas a dar respostas prontas. Escreve para ajudar você a reconhecer o próprio gosto e a escolher melhor na prateleira, inspirado no método sistemático de degustação do WSET.
Na prática · Perfil de gosto
Leve isso para a próxima taça
A cada prova, o Enomentor compara seus vinhos e mostra o que os seus favoritos têm em comum. O Enomentor é gratuito e funciona no celular e no computador.
Entendendo o próprio paladar
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